Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia

           

Nº 103490

Valor Econômico

Data: 18/05/2007

 

 

 

 

Produção vai crescer 71% em cinco anos

 

 

 

 

Genilson Cezar

Terras disponíveis ao plantio não faltam. Há em grande quantidade, inclusive com boa topografia para o cultivo. Dinheiro para investir em novas usinas há, também, o suficiente, tendo como principal fonte o BNDES. Mas isso não basta. Para que a atividade sucroalcooleira no Brasil mantenha seu atual ritmo de crescimento e possa participar de maneira sustentável da cadeia produtiva para o biodiesel é preciso muito mais, de acordo com empresários e especialistas do setor.

"Os maiores desafios hoje residem na ausência de uma infra-estrutura adequada de logística para movimentação dos produtos, nas estradas e nos portos, na pesada carga tributária, que diminui a competitividade dos produtores, e na questão das exigências de garantias bancárias para os novos investimentos", avalia Antônio de Pádua Rodrigues, diretor da Unica (União da Agroindústria Canavieira de São Paulo), que reúne as usinas de açúcar e álcool.

Segundo ele, a fragilidade da logística é uma ameaça séria à competitividade em todos os elos da cadeia de valor da agroindústria da cana de açúcar. "Sem melhorar a infra-estrutura de transportes, especialmente nos portos, não será possível atender adequadamente à demanda crescente do mercado interno, nos grandes centros de consumo, e no mercado externo", insiste Rodrigues. Além disso, assinala ele, é inviável operar com a atual carga tributária (PIS, Cofins, ICMS), que em São Paulo atinge 20%, mas em outros Estados bate o patamar dos 40%.

Essas preocupações não diminuem, no entanto, o nível de otimismo das perspectivas de expansão do setor sucroalcooleiro nos próximos anos. Afinal, trata-se de um setor composto de 325 usinas e destilarias, que movimenta R$ 50 bilhões, algo como 1,5% do PIB do país. Segundo a Unica, estão previstos 86 novos projetos, que consumirão nos próximos cinco anos investimentos totais da ordem de US$ 17 bilhões. Desse montante, US$ 14 bilhões serão utilizados na implantação de novas unidades e US$ 3 bilhões para ampliação das usinas já existentes. Pelo menos 19 projetos começam a operar na safra 2007/2008.

Cada nova usina tem capacidade de moer em média 2 milhões de toneladas de açúcar e custa cerca de US$ 140 milhões. "Existem outros 60 projetos já listados, vários deles com potencial para expansão, mas que esbarram nas exigências bancárias de terem que dispor de contrapartida de um terço do valor do financiamento como garantia aos empréstimos", diz Rodrigues.

Na safra 2006/2007, o setor canavieiro moeu 425,7 milhões de toneladas de cana, que ocuparam uma área total de 6,3 milhões de hectares. Com os novos projetos para atender à demanda industrial, essa produção deverá atingir 727,8 milhões de toneladas de cana em 2012/2013, ou seja, um crescimento de quase 71%. Vai significar também um aumento de 63% na área plantada com canaviais, que chegará a 10,3 milhões de hectares. O setor sucroalcooleiro brasileiro produz ainda cerca de 30 milhões de toneladas de açúcar por ano, das quais 19,6 milhões de toneladas destinadas ao mercado externo. A expectativa é que essa produção chegue próxima de 39 milhões de toneladas de açúcar, sendo que 27 milhões de toneladas serão para exportação.

O aumento de produção no setor sucroalcooleiro deve-se à expansão do mercado interno de etanol de cana, basicamente em função da demanda gerada pela frota de veículos flex-fuel, informa Eduardo Carvalho, presidente da Unica, no estudo "Perspectivas da Agroenergia". "A produção atual deve saltar de 17,7 bilhões de litros de álcool para 38 bilhões de litros na safra 2012/2013", sustenta ele. De acordo com indicadores da Unica sobre a participação dos fornecedores de cana na cadeia de açúcar e álcool, as exportações de etanol poderão passar de 3,5 bilhões de litros atuais para 5,5 bilhões de litros daqui a cinco anos.

"A nossa projeção é que a parte da produção de cana destinada à fabricação de álcool, que hoje é de 50% do total chegue a 65% do total na safra 2012/2013", comenta Rodrigues. Quer dizer, aumenta cada vez mais o volume de cana destinada para o álcool. "Mas esse ritmo só vai acontecer se forem superados alguns obstáculos para expansão do mercado interno, além de necessitar de um trabalho forte para acesso a novos mercados externos. "Sem isso, fica difícil esse cenário se tornar uma realidade", aponta Rodrigues.

Para Leonardo Bichara, economista da Organização Internacional do Açúcar, sediada em Londres, que participou da Global Initiative on Commodities, realizada de 8 a 10 de maio, em Brasília, a expansão do plantio de cana de açúcar vai continuar, seguramente. Mas movida muito mais pela expansão do consumo interno, do que pelo exportações, que estão apenas começando. "O aumento das exportações depende da sazonalidade de preços do mercado internacional, da implantação de políticas governamentais, em vários países, de misturas de álcool à gasolina, e, principalmente, da redução de barreiras tarifárias", assinala Bichara.

Segundo ele, nos últimos três anos mais de 20 novas usinas de açúcar entraram em produção no país para atender à demanda externa pelo produto brasileiro.

Mas, no futuro, isso não deve se repetir, pois outros países também estão implantando suas próprias usinas. As exportações de açúcar, que em 2006 foram 15% maiores que em 2005, devem estabilizar-se em 2007, informa o economista. "O desafio agora é abrir o mercado para o álcool brasileiro no mundo. É preciso brigar por reduções de tarifas, especialmente nos Estados Unidos, que cobram 54 centavos de dólar por galão importado", afirma.

Outro desafio, segundo Rodrigues, diretor da Unica, é a questão da mão-de-obra empregada pela agroindústria açucareira. Atualmente são 3,6 milhões de empregos diretos e indiretos, envolvendo mais de 72 mil agricultores. "Com o processo crescente de eliminar a queima da palha da cana de açúcar, substituindo-o pela mecanização através de grandes colheitadeiras, a perspectiva é que, só em São Paulo, pelo menos 150 mil agricultores fiquem desempregados", estima ele.

Ao mesmo tempo, haverá falta de trabalhadores especializados para operar as máquinas colheitadeiras. "Nos próximos cinco anos serão criados cerca de 20 mil novos empregos especializados - na parte agrícola, tratoristas, operadores de colheitadeiras e caminhões, contingente que precisa ser formado, qualificado e requalificado", diz Rodrigues.

Mas tudo tem solução, observa o executivo. Trata-se de um processo de maturação da produção agroindustrial. "Afinal, estamos ingressando em um novo padrão de produção de cana e de álcool.", indica o diretor da Unica.