Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia
Nº 112889
Valor Econômico
Data: 14/04/2008
Paraguai não é Bolívia - a
falácia de Itaipu
Sérgio Léo
A pessoa que serve cafezinho aos diretores na sala do conselho da
hidrelétrica Itaipu binacional tem de atravessar com
freqüência uma linha imaginária: situada sobre a
hidrelétrica, no meio das águas que separam Brasil e Paraguai,
metade da sala está do lado paraguaio da fronteira, e a outra metade, do
lado brasileiro. As instalações de engenharia e
operação da usina também ficam em território
binacional. Esse é apenas um dos detalhes que diferenciam profundamente
a situação de Itaipu das encrencas do Brasil com o gás
boliviano.
Tema de campanha nas eleições presidenciais deste ano no
Paraguai, a insatisfação paraguaia com os termos do contrato de
Itaipu também se transformou em moeda política no Brasil. O
candidato favorito no Paraguai, Fernando Lugo,
incluiu no programa de governo a renegociação do Tratado de
Itaipu. O tratado fixa limites para o preço da
energia da usina e exige que o Paraguai venda apenas ao Brasil o que deixar de
consumir. No Brasil, opositores da política externa levantam temores de
que o próximo governo paraguaio crie problemas aos interesses
brasileiros, imitando as agressões na Bolívia de Evo Morales aos interesses da Petrobras.
O alarme com os riscos do Brasil em Itaipu pode ser atribuído, em
parte, ao jogo partidário brasileiro, que escolheu os temas de
política externa como pretexto para a crítica ao governo Lula. A
desinformação sobre Itaipu e sobre o país vizinho
também pode explicar parte do medo de que se repitam no Paraguai os
constrangimentos causados pela Bolívia, que obrigou a Petrobras a
renegociar contratos e vender refinarias após cercar com tropas
instalações da empresa.
No caso do contencioso boliviano com a Petrobras, a Bolívia tinha
compromissos com uma empresa, e cercou com tropas as instalações
privadas em território boliviano. No caso paraguaio, a
imitação do gesto agressivo de Evo
Morales exigiria um ato de guerra, já que o Tratado de Itaipu foi
firmado entre dois governos, aprovado pelos dois Congressos, e se refere a
instalações situadas na fronteira exata dos dois
países.
Assumindo a extravagante hipótese de cobrar pelas armas as
reivindicações sobre Itaipu, o mandatário paraguaio
descobriria que as Forças Armadas paraguaias são as menos
equipadas do continente, com tanques reformados pelo Brasil, que também
financia seus contingentes no Haiti. É conhecido o gracejo de que o bem
fornido batalhão mantido pelo Brasil em Foz do Iguaçu supera o
poder de fogo de boa parte do Exército vizinho.
Excluída a fantasiosa hipótese de provocação
bélica paraguaia, um pouco de conhecimento de história
também ajuda a combater o alarmismo sobre Itaipu.
Na Bolívia, Evo Morales assumiu o governo
em um cenário de desarticulação das forças
política tradicionais, após um referendo popular que aprovou a
nacionalização das reservas de gás do país e levou
à queda de dois presidentes, no contexto de ascensão da
população indígena à cena política,
após séculos de alijamento. Fernando Lugo, o favorito e mais agressivo em defesa de
mudanças para Itaipu, apesar do histórico de luta pelas causas
populares, fala a uma platéia apática, é descendente de
fazendeiros, apoiado por um partido tradicional da elite paraguaia, o Liberal
(que deve lhe garantir quadros e condições políticas para
governar). Nem fala guarani, segunda língua oficial no Paraguai,
dominada pelos demais candidatos e usada pelo povo.
Se essas diferenças não bastam, vale a
pena prestar atenção ao que vêm dizendo os candidatos
paraguaios à presidência sobre Itaipu. Um deles, Lino Oviedo, general, ex-comandante do Exército e
ex-golpista, publicou na semana passada um artigo na "Folha de S.
Paulo" defendendo a tese de que, antes de reclamar dos preços da
energia de Itaipu ao Brasil, os governantes paraguaios têm de se
preocupar em criar condições para usar a energia que lhes cabe e
fazer sociedade com o Brasil para incentivar a economia.
Oviedo é considerado o grande ganhador,
mesmo que não chegue à presidência. O partido formado em
torno da candidatura, o Unace, tende a ter fiel da
balança no Congresso, na disputa entre as maiores
forças políticas.
Lugo, apesar da retórica inflamada,
já deixou claro qual atitude tomará se o governo brasileiro, como
vem afirmando, recusar-se a rever os termos do Tratado de Itaipu: vai recorrer
aos tribunais internacionais. Será uma maneira civilizada de descobrir
que seus argumentos não resistem ao crivo do direito.
Há motivos para a oposição, no Brasil, alfinetar o
governo na discussão de Itaipu. Embora a renegociação do
tratado seja um tabu bem preservado na Esplanada dos Ministérios e no
Palácio do Planalto, as bases do PT se inclinam em favor das demandas
paraguaias. A esquerda brasileira adepta à renegociação do
Tratado de Itaipu, encontrável nas fileiras do PT, do PSOL e do PSTU,
afirma que os argumentos do governo brasileiro, de que Itaipu não
existiria sem o investimento e os riscos assumidos pelo Brasil, têm
semelhanças enormes com os das mineradoras que exploravam riquezas
naturais em países africanos, beneficiadas por contratos draconianos
firmados com governos coloniais.
Embora se diga disposto a discutir tudo sobre Itaipu, o Itamaraty abriga um
consenso pétreo contra a reabertura de tratados firmados pelo
país no continente. Contra os argumentos da própria esquerda, o
governo Lula apresenta idéias muito parecidas às sugestões
do candidato Oviedo - e de outros candidatos de menor
expressão política: o Brasil pode - e deve - ajudar a fortalecer
a economia paraguaia.
Itaipu conclui neste mês o projeto de uma linha de transmissão
para Assunção, que substituirá a decadente linha atual,
motivo de constantes apagões na capital. Ao eliminar as perdas de
até 40% na transmissão de energia à cidade, aumentará
substancialmente a disponibilidade, no país, de um recurso escasso no
continente.
Inundado de energia, o Paraguai tem um trunfo importante para atrair
investimentos. Precisará, porém, adotar outras medidas
essenciais: combater a corrupção, a burocracia, e a precariedade
institucional do país, que afugentam os negócios. Não
é com a revisão de tratados que se realiza uma tarefa
dessas.
Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras