Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia

Nº 116037

Jornal do Commercio

Data: 05/07/2008

 

ANP investiga falta de gasolina

 

Felipe Lima

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) vai notificar na próxima semana todas as distribuidoras que atendem ao mercado pernambucano para averiguar o que motivou o desabastecimento que tem atingido os postos de combustíveis do Grande Recife desde a semana passada. Como antecipou o JC ontem, a falta de álcool que já assolava a região metropolitana no período de São João, evoluiu para uma escassez de gasolina em diversos estabelecimentos. Isso porque, no Brasil, esse combustível possui 25% de álcool do tipo anidro em sua mistura.

O coordenador-regional da ANP no Nordeste, Francisco Nelson Castro Neves, acredita que não há motivos para a falta dos produtos no Estado e que os problemas giram em torno de deficiências nos sistemas de logística e de manutenção dos estoques das empresas de distribuição. “Fomos pegos de surpresa com a notícia do desabastecimento de combustível no Grande Recife. Estamos reunindo nosso corpo técnico e jurídico para analisar de que maneira iremos auditar as distribuidoras e descobrir o que de fato aconteceu para se chegar nessa situação”, explicou Castro Neves.

Pernambuco é o segundo maior consumidor de combustíveis do Nordeste, atrás apenas da Bahia. Em 2007, segundo a ANP, foram consumidos mais de 620 milhões de litros de gasolina no Estado e algo em torno de 163 milhões de litros de álcool. Ainda de acordo com o coordenador-regional da ANP, justamente por ocupar essa posição, o mercado pernambucano não pode ficar desabastecido. Castro Neves considera ainda que as revendas não têm culpa nesse cenário, ainda que elas sejam alvos de críticas de representantes das distribuidoras e das usinas por não terem um plano de aquisição a longo prazo dos produtos, optando por um esquema conhecido como stot, a curto prazo. Nele, o pedido geralmente é feito no mesmo dia em que se percebe a necessidade de abastecer as bombas.

O desabastecimento do Grande Recife chamou mais atenção da ANP pelo fato da última safra brasileira ter sido recorde, produzindo mais de 20 bilhões de litros de etanol e pouco desse montante ter sido destinado para exportação. Em Pernambuco foram produzidos pouco mais de 478 milhões de litros, um montante 39,70% superior à safra 2006/2007. Se analisado o fato de que as exportações pernambucanas de etanol caíram 37,56% de janeiro a maio deste ano em comparação com 2007, percebe-se que não há motivos para um desabastecimento local.

E a previsão para 2008 é de que no Brasil sejam produzidos 25 bilhões de litros de etanol em 2008. “Isso reforça a tese de que não está faltando produto e que o problema só pode ser de gestão de estoques e meios logísticos das distribuidoras”, reforçou Castro Neves, acrescentando que o atual cenário servirá de alerta para essas empresas frente as perspectivas de manutenção dos altos índices de venda de veículos com tecnologia flex fuel, que têm sido cruciais para o aumento na demanda interna de etanol.

De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) foram comercializados 26.889 automóveis leves em Pernambuco, um aumento de 41,47% nas vendas ante o mesmo período do ano passado. Levando-se em conta que, segundo a própria federação, mais de 85% desses modelos são bicombustíveis, a necessidade de manter um abastecimento regular se mostra cada vez maior.

Revendas já ameaçam com novos aumentos

A situação dos postos de combustíveis do Grande Recife não apresentou melhora ontem e as perspectivas para o final de semana, quando a demanda praticamente triplica, são as piores possíveis. O presidente do Sindicato dos Revendedores de Combustíveis do Estado de Pernambuco (Sindicombustíveis-PE), José Afonso Nóbrega, comentou que nos dois estabelecimentos que possui, por exemplo, um de bandeira Texaco, no bairro de Boa Viagem, e um Petrobras, na Imbiribeira, não havia gasolina ontem e, até o final da tarde, o pedido feito por ele às distribuidoras ainda pela manhã não tinha sido atendido. Segundo estimativas do presidente, a situação só deverá mostrar sinais de normalização na próxima sexta-feira.

E para piorar, ainda de acordo com o sindicato, os preços já estão sofrendo ameaças de novos reajustes em virtude do aumento nos custos com frete para trazer os produtos do Centro-Oeste. A estratégia adotada nesta época do ano pelas distribuidoras por conta da safra de cana-de-açúcar no Sudeste, enquanto o Nordeste está na entressafra. O álcool está sendo vendido pelas distribuidoras a R$ 1,687, quando o valor há alguns dias era de R$ 1,49. A gasolina sofreu um aumento que varia de R$ 0,04 a R$ 0,06. O repasse para o consumidor final já deve ocorrer a partir da próxima semana, informou Nóbrega.

“Nós continuamos na incerteza. Muitos postos estão no limite e, com certeza, a situação irá se agravar no final de semana. Não dá nem para aconselhar o consumidor a fugir dos centros de maior consumo como os bairros de Casa Forte, Piedade, Imbiribeira e Boa Viagem e seguir para locais onde a demanda é menor, como a Avenida Norte, porque provavelmente chegará um momento em que eles não darão conta da procura. O conselho que eu dou é não deixar de forma alguma o carro ficar perto da reserva, ainda que para isso seja preciso deixá-lo em casa”, comentou.

Nenhuma distribuidora está atendendo pedidos superiores a cinco mil litros de cada produto. E, diferentemente do que ocorre em épocas normais, quando o caminhão aporta nos postos no mesmo dia em que é feita a solicitação, os proprietários dos estabelecimentos de revenda de combustíveis estão esperando até dois dias pelo produto. O resultado são os funcionários de braços cruzados na frente das bombas tendo que avisar aos consumidores que não há combustível.

Até agora, a única explicação dada para a crise no abastecimento de combustíveis no Grande Recife é de que, além da região Nordeste está passando por um período de entressafra de cana-de-açúcar, houve um atraso na safra do Sudeste, provocando a redução nos estoques de álcool em todo País.