Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia
Nº 116037
Jornal do Commercio
Data:
ANP investiga falta de gasolina
Felipe Lima
A Agência Nacional do Petróleo (ANP)
vai notificar na próxima semana todas as distribuidoras que atendem ao
mercado pernambucano para averiguar o que motivou o desabastecimento que tem
atingido os postos de combustíveis do Grande Recife desde a semana
passada. Como antecipou o JC ontem, a falta de álcool que já
assolava a região metropolitana no período de São
João, evoluiu para uma escassez de gasolina em diversos
estabelecimentos. Isso porque, no Brasil, esse combustível possui 25% de
álcool do tipo anidro em sua mistura.
O coordenador-regional da ANP no Nordeste,
Francisco Nelson Castro Neves, acredita que não há motivos para a
falta dos produtos no Estado e que os problemas giram em torno de deficiências
nos sistemas de logística e de manutenção dos estoques das
empresas de distribuição. “Fomos pegos de surpresa com a
notícia do desabastecimento de combustível no Grande Recife.
Estamos reunindo nosso corpo técnico e jurídico para analisar de
que maneira iremos auditar as distribuidoras e descobrir o que de fato
aconteceu para se chegar nessa situação”, explicou Castro
Neves.
Pernambuco é o segundo maior consumidor de
combustíveis do Nordeste, atrás apenas da Bahia. Em 2007, segundo
a ANP, foram consumidos mais de 620 milhões de litros de gasolina no
Estado e algo em torno de 163 milhões de litros de álcool. Ainda
de acordo com o coordenador-regional da ANP, justamente por ocupar essa
posição, o mercado pernambucano não pode ficar desabastecido. Castro Neves considera ainda que as revendas
não têm culpa nesse cenário, ainda que elas sejam alvos de
críticas de representantes das distribuidoras e das usinas por
não terem um plano de aquisição a longo prazo dos
produtos, optando por um esquema conhecido como stot,
a curto prazo. Nele, o pedido geralmente é feito no mesmo dia em que se
percebe a necessidade de abastecer as bombas.
O desabastecimento do Grande Recife chamou mais
atenção da ANP pelo fato da última safra brasileira ter
sido recorde, produzindo mais de 20 bilhões de litros de etanol e pouco
desse montante ter sido destinado para exportação. Em Pernambuco foram produzidos pouco mais de 478 milhões de litros,
um montante 39,70% superior à safra 2006/2007. Se analisado o fato de
que as exportações pernambucanas de etanol caíram 37,56%
de janeiro a maio deste ano em comparação com 2007, percebe-se
que não há motivos para um desabastecimento local.
E a previsão para 2008 é de que no
Brasil sejam produzidos 25 bilhões de litros de etanol em 2008.
“Isso reforça a tese de que não está faltando
produto e que o problema só pode ser de gestão de estoques e
meios logísticos das distribuidoras”, reforçou Castro
Neves, acrescentando que o atual cenário servirá de alerta para
essas empresas frente as perspectivas de
manutenção dos altos índices de venda de veículos
com tecnologia flex fuel, que têm sido cruciais para o aumento na demanda
interna de etanol.
De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) foram comercializados 26.889 automóveis leves em Pernambuco, um aumento de 41,47% nas vendas ante o mesmo período do ano passado. Levando-se em conta que, segundo a própria federação, mais de 85% desses modelos são bicombustíveis, a necessidade de manter um abastecimento regular se mostra cada vez maior.
Revendas já ameaçam com novos
aumentos
A situação dos postos de
combustíveis do Grande Recife não apresentou melhora ontem e as
perspectivas para o final de semana, quando a demanda praticamente triplica,
são as piores possíveis. O presidente do Sindicato dos
Revendedores de Combustíveis do Estado de Pernambuco (Sindicombustíveis-PE),
José Afonso Nóbrega, comentou que nos dois estabelecimentos que
possui, por exemplo, um de bandeira Texaco, no bairro de Boa Viagem, e um
Petrobras, na Imbiribeira, não havia gasolina
ontem e, até o final da tarde, o pedido feito por ele às
distribuidoras ainda pela manhã não tinha sido atendido. Segundo
estimativas do presidente, a situação só deverá mostrar
sinais de normalização na próxima sexta-feira.
E para piorar, ainda de acordo com o sindicato, os
preços já estão sofrendo ameaças de novos reajustes
em virtude do aumento nos custos com frete para trazer os produtos do
Centro-Oeste. A estratégia adotada nesta época do ano pelas
distribuidoras por conta da safra de cana-de-açúcar no Sudeste,
enquanto o Nordeste está na entressafra. O álcool está
sendo vendido pelas distribuidoras a R$ 1,687, quando
o valor há alguns dias era de R$
“Nós continuamos na incerteza. Muitos
postos estão no limite e, com certeza, a situação
irá se agravar no final de semana. Não dá nem para
aconselhar o consumidor a fugir dos centros de maior consumo como os bairros de
Casa Forte, Piedade, Imbiribeira e Boa Viagem e
seguir para locais onde a demanda é menor, como a Avenida Norte, porque
provavelmente chegará um momento em que eles não darão
conta da procura. O conselho que eu dou é não deixar de forma
alguma o carro ficar perto da reserva, ainda que para isso seja preciso
deixá-lo em casa”, comentou.
Nenhuma distribuidora está atendendo
pedidos superiores a cinco mil litros de cada produto. E, diferentemente do que
ocorre em épocas normais, quando o caminhão aporta nos postos no
mesmo dia em que é feita a solicitação, os
proprietários dos estabelecimentos de revenda de combustíveis
estão esperando até dois dias pelo produto. O resultado
são os funcionários de braços cruzados na frente das
bombas tendo que avisar aos consumidores que não há
combustível.
Até agora, a única
explicação dada para a crise no abastecimento de
combustíveis no Grande Recife é de que, além da
região Nordeste está passando por um período de
entressafra de cana-de-açúcar, houve um atraso na safra do
Sudeste, provocando a redução nos estoques de álcool