Hemeroteca do Instituto de Eletroténica e
Energia
Nº 126964
Valor Econômico
Data: 13/11/2009
País não está livre de blecautes, diz Dilma
Paulo de Tarso
Lyra, de Brasília
Depois de
reunião com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, o
ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, anunciou que será concedida licença
ambiental para a usina de Belo Monte nesta segunda-feira. A decisão, segundo
Edison Lobão, é importante "para dar mais segurança ao sistema elétrico
brasileiro". Lobão citou que Belo Monte será a terceira maior usina do
mundo, com capacidade de geração de 1,3 milhão de megawatts. A ministra da Casa
Civil e ex-ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, participou da reunião
e explicou, depois, que a antecipação do licenciamento de Belo Monte nada tem a
ver com o apagão de terça-feira.
Ontem, Dilma,
que foi retirada da cena de explicação do apagão pelo presidente Lula, falou
pela primeira vez sobre o acidente. Defendeu sua gestão, corrigiu declarações
antigas que têm sido divulgadas, em que garantia não haver mais apagões, e
esclareceu que o país não está livre de blecautes, como os ocorridos na noite
de terça, mas sim de racionamento. Atacou os adversários políticos, que chamou
de "barbeiros". Garantiu que o Brasil não passará por um novo
racionamento de energia, como aconteceu durante o segundo mandato de Fernando
Henrique Cardoso: "Racionamento é barbeiragem. Por que é barbeiragem?
Porque racionamento de oito meses implica que eu, com cinco anos de
antecedência, não soube a quantidade de energia que tinha de entrar para
abastecer o país."
Para Dilma,
comparar as duas coisas "é tentar fazer, deliberadamente, confusão onde
não tem. E tentar apresentar o país com uma fragilidade que não existe".
Dilma lamentou o apagão de terça, em especial os prejuízos sofridos pelos
consumidores. Mas reforçou a tese defendida pelo governo federal de que o país
está em uma situação completamente diferente daquela vivida na gestão FHC.
"Temos energia de sobra, os números podem comprovar isto. E o setor
produtivo tem uma responsabilidade muito grande, um papel preponderante
nisto", ressaltou ela.
Dilma afirmou
que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prossegue com as
investigações sobre o blecaute. Disse que, por enquanto, o governo mantém a
hipótese levantada na quarta-feira pelo Ministério de Minas e Energia de que
uma sucessão de raios, ventos e tempestades provocou a derrubada do sistema
elétrico. Pouco antes, durante anúncio dos números do desmatamento em 2008, o
presidente Lula, sem referir-se diretamente ao apagão, disse que o ser humano
não consegue controlar o mau tempo, argumento também utilizado no governo FHC
para reclamar da falta de chuvas que deixou vazios os reservatórios.
Dilma rebateu
as hipóteses técnicas de que o apagão de terça possa ser atribuído a uma
fragilidade do sistema elétrico. "O nosso sistema é um dos mais seguros do
mundo. Se não me engano - estou há muito tempo fora do setor - na área de
geração a confiabilidade é de 95%. Se você quiser ter uma garantia de 100%, a
conta (de luz) vai ficar muito cara para o consumidor", afirmou a
ministra. Ela lembrou que, em outros momentos, os mesmos linhões de transmissão
de Itaipu tiveram problemas semelhantes, mas que foram sanados a tempo de
provocar um estrago maior. "Como elas são paralelas, se o problema tivesse
ocorrido apenas em uma das linhas, o sistema suportaria. Mas como elas pararam
de funcionar em um espaço de praticamente um milésimo de segundo, não houve
jeito", explicou a ministra.
Dilma afirmou
que não iria responder às críticas da oposição sobre o episódio. PSDB, DEM e
PPS querem convocá-la para, junto com o ministro de Minas e Energia, Edison
Lobão, ir ao Congresso explicar o que aconteceu na noite de terça. "Eu não
vou politizar um assunto tão sério para o país, isso não seria republicano da
minha parte."
A chefe da Casa
Civil negou que a decisão tomada na manhã de ontem de conceder a licença
ambiental da Usina de Belo Monte na próxima segunda-feira seja uma resposta do
governo ao apagão. "Esta licença estava prevista para ser emitida no fim
de outubro, este cronograma está no PAC." De acordo com Edison Lobão, Belo
Monte será a terceira maior usina do mundo, com capacidade de geração de 1,3
milhão de megawatts.
A antecipação
da concessão da licença surpreendeu alguns interlocutores do governo. Segundo
eles, apesar da pressa em liberar a construção da Usina de Belo Monte -
prevista para entrar em operação em 2013 - alguns entraves jurídicos e
políticos impediam a concessão da licença. O primeiro deles foi derrubado na
quarta-feira pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. O Tribunal cassou uma
liminar solicitada pela Vara Federal de Altamira (PA) para que fossem
realizadas mais audiências públicas sobre o tema.
O outro impasse
era político. Para essa fonte, a pressão de Lula pode ter sido decisiva, como
foi em 2005, quando a ex-ministra do Meio Ambiente e pré-candidata do PV à
presidência, Marina Silva, resistia a emitir as licenças para as hidrelétricas
do Rio Madeira. Lula reuniu Marina com o então ministro de Minas e Energia,
Silas Rondeau, e exigiu que o processo fosse agilizado, desgastando ainda mais
a posição de Marina no governo federal.