Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia
Nº: 71793
Gazeta Mercantil
Data: 22/05/2003
Alemanha
desativará usinas nucleares
Berlim,
23 de Maio de 2003 - País discute hoje a melhor forma de compensar a perda na
geração e o destino do lixo atômico. O governo alemão promete colocar em
prática, ainda neste ano, o projeto de desativação de todas as usinas nucleares
do país. Apesar de ter a aprovação da maioria da população, o fim da geração
nuclear na matriz energética alemã esbarra em dois grandes empecilhos: qual a
melhor forma de compensar a energia que deixará de ser produzida e,
principalmente, onde armazenar o lixo radioativo das 20 usinas ainda em
atividade na Alemanha. No primeiro caso, a hipótese mais provável é a de
substituí-la por fontes de energia renovável. Já o segundo problema ainda está
longe de uma solução, uma vez que ainda não há definição sobre qual será o
destino mais seguro para o lixo.
"Estamos
procurando, dentro do território alemão, um local onde possamos construir um
depósito temporário. Mas esse não é o maior problema, e sim onde instalaremos
um depósito definitivo. Ainda não temos a mínima idéia sobre isso",
informa o representante da divisão de energias renováveis do Ministério do Meio
Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear, Martin Schöpe. "Esse
é, aliás, um dos principais motivos que nos levaram a abandonar o projeto de
usinas nucleares. Até hoje, no mundo todo, não há como armazenar, de uma
maneira segura e confiável, esse tipo de detrito."
Ofertas de Rússia e
Cazaquistão
Schöpe diz que alguns
países, entre eles a Rússia e o Cazaquistão, chegaram a se oferecer para
armazenar em território próprio o lixo atômico produzido pelas usinas alemãs.
Em troca, receberiam uma boa quantia em dinheiro. A proposta, no entanto, teria
sido descartada. "Essa não é a idéia do governo. Esses são países com
tradicional instabilidade política, onde o que é combinado hoje pode não valer
nada amanhã. Não podemos correr esse risco. Não podemos levar esse problema
para outro país."
Pelo cronograma do
governo, a primeira central a ter as atividades encerradas será a de Obrigheim,
instalada próxima à cidade de Heilbronn, no Sul da Alemanha. A previsão é de
que o processo de desativação tenha início a partir do segundo semestre. Uma
outra, ainda não definida, seria desativada até o final de 2004.
A energia nuclear é hoje
a principal fonte de energia da Alemanha. Juntas, as 20 usinas são responsáveis
por 27,8% da matriz energética do país - segundo a Agência Internacional de
Energia Atômica, a participação em novembro de 2002 era de 31%. As centrais são
controladas por quatro grandes companhias, das quais três alemãs e uma sueca.
Como tais empresas também exploram outras fontes de geração de energia
elétrica, os prejuízos poderiam ser amenizados, assim como a garantia de
manutenção dos empregos - cada central nuclear emprega, em média, 100
funcionários.
Promessa de campanha
A proposta de
desativação das usinas nucleares foi uma das promessas de campanha para a
reeleição do chanceler Gerhard Schröder, no ano passado. O candidato opositor,
o conservador Edmund Stoiber, fez campanha inversa na ocasião, declarando que
era a favor da continuidade das usinas. Passadas as eleições, Stoiber, que é
governador do Estado da Baviera (o nome oficial do cargo é
ministro-presidente), mantém sua posição contrária ao projeto de fim das
atividades nucleares no país. "Somos contra porque não é possível
substituir a energia que é gerada atualmente pelas usinas nucleares. Isso sem
falar no dinheiro que será necessário investir", explica o porta-voz do
Estado da Baviera, Ulrich Wilhelm.
O representante da
divisão de política energética do Ministério da Economia e Trabalho, Jörg Kirsch,
diz que não se sabe ainda quanto será necessário investir para que todas as
usinas deixem de operar. Ele cita como exemplo o caso de duas usinas nucleares
que foram fechadas na antiga Alemanha Oriental, logo após a reunificação do
país. "Foram necessários € 2 bilhões para desativar as duas usinas. Outros
€ 500 milhões são investidos anualmente no saneamento das minas de
urânio."
Uma das apostas do
governo alemão para conseguir compensar a desativação das usinas nucleares é a
energia renovável, que hoje representa apenas 8% da matriz energética. A meta é
aumentar para algo entre 10% e 12% no curto prazo. Como não há espaço físico
para a instalação de novas hidrelétricas na Alemanha, o foco está na energia
eólica, hoje responsável por 12 mil megawatts. "A idéia é termos dez vezes
mais do que isso nos próximos 20 anos", diz Schöpe. Além do preço - um
moinho de vento custa entre € 2 milhões e € 3 milhões-, a energia eólica é mais
otimizada. Em uma área de 40 km², pode-se obter energia suficiente para substituir
as 20 centrais nucleares.
(Gazeta
Mercantil/Caderno A7)(Paula Maia)