Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia
Nº: 74638
Valor Econômico
Data: 24/09/2003
Christiane
Martinez e Leonardo Goy*, De São Paulo
O primeiro leilão de concessões à iniciativa
privada do governo Lula, realizado ontem, relembrou os tempos das grandes privatizações
do governo Fernando Henrique. Seguiu roteiro e cenário semelhantes, desta vez
na Bolsa de Valores de São Paulo e não na do Rio. A diferença é que na estréia
do PT, os maiores vencedores foram as estatais federais - antes proibidas de
participar de leilões de concessão.
As subsidiárias da holding
Nos sete lotes, foram ofertados 1,7 mil
quilômetros de linhas de transmissão de energia elétrica, divididos em onze
trechos. O investimento estimado é de R$ 1,8 bilhão, sendo que o capital
internacional vai alocar em torno de R$ 700 milhões.
Os vencedores, tanto privados como
estatais, pleiteiam financiar no BNDES até 70% do investimento na construção
das linhas. A venda deu-se por meio de leilão reverso, no qual vencia o
consórcio que oferecesse o menor preço para explorar a concessão por 30 anos.
As propostas foram entregues em envelopes fechados, por corretoras que
representavam os consórcios.
Com isso, o deságio médio alcançado somou
36,53% - o equivalente a um desconto de R$ 161 milhões, segundo José Mário
Abdo, presidente da Aneel, a agência reguladora do setor, que promoveu o
leilão. "O deságio de hoje (ontem) é equivalente a todo o deságio que
conseguimos até agora para os 11,8 mil quilômetros de linhas que estão sendo
construídas a partir de 1999 - seja por concessão em leilão, seja por
outorga."
A maior disputa de ontem ficou para o lote
C, com 541 quilômetros de extensão divididos em dois trechos, ligando Teresina
(PI) a Fortaleza (CE). O teto máximo estabelecido pelo governo foi de R$ 128,14
milhões. Mas o consórcio AC Transmissão (constituído pela
Sete consórcios apresentaram propostas e
como três delas tinham diferença de preço inferior a 5%, o leilão passou para o
sistema de "viva voz", no qual os proponentes faziam a oferta oralmente.
Depois de 45 lances, disputados cabeça a cabeça com a
Apesar de ser o mais disputado, o lote C
não foi o que se registrou o maior deságio. O lote B, com 376 quilômetros que
liga Salto Santiago a Cascavel (PR), tinha preço máximo de R$ 81, 6 milhões,
mas será explorado por quase a metade do valor: R$ 41, 6 milhões, um deságio de
49,01%.
O ministro interino das Minas e Energia,
Maurício Tolmasquim, elogiou o sistema de leilão reverso, no qual "quem
ganha é o consumidor". "Com o deságio, vai se transportar energia ao
menor custo possível. E é exatamente esse modelo que queremos implementar para
as concessões de geração", disse. "O sistema de maior ágio pode até
agradar ao Tesouro, mas o que queremos é o menor custo."
Tolmasquim achou o leilão de equilibrado entre estatais e empresas privadas. Luiz Pinguelli Rosa, presidente da Eletrobrás, comemorou a vitória das suas subsidiárias e classificou de "maluca" a antiga lei que proibia a participação das estatais nos leilões. O jejum das estatais só foi quebrado em junho passado, quando o Conselho Nacional de Desestatização (CND) permitiu a volta delas sob a condição de serem minoritárias nos consórcios. (*Do Valor Online)