Hemeroteca do Instituto de Eletrotécnica e Energia

 

Nº  80248

O Estado de São Paulo

Data: 02/07/2004

 

Termoelétricas podem virar 'megaesqueleto'


Petrobrás não fornece gás natural em volume suficiente

ALAOR BARBOSA

RIO - As megausinas térmicas instaladas dentro do Programa Prioritário de Termelétricas (PPT) estão perto de se tornarem um "megaesqueleto" no setor elétrico, onerando os custos para o consumidor nos próximos 20 anos, sem gerar energia. Ou então, caso a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) cumpra a ameaça de descredenciar essas usinas, declarando-as sem "lastro físico", como prevê o novo modelo do setor, as perdas teriam de ser assumidas pelos investidores, inclusive a Petrobrás.

"São mais de US$ 6 bilhões em jogo", observou um dirigente do setor. "Há uma disputa entre a Aneel e o Ministério das Minas e Energia, e o resultado pode ser prejuízo para todos que investiram".

A disputa não é assumida nem pela Aneel, nem pelo ministério. Mas quem consultar o site da agência reguladora poderá constatar que a entidade sustenta que o País teria um parque gerador, com base em térmicas, de 18.104 GW de potência. Só que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) computa apenas 7.219 GW como passíveis de utilização. Os restantes 10.885 GW estão no "limbo", e seriam suficientes para atender mais da metade de todo o consumo de São Paulo.

As térmicas não foram testadas pelo ONS porque a Petrobrás não fornece gás natural em volume suficiente, apesar de ter assinado contratos. Além disso, por definição legal, o ONS "despacha" (autoriza a funcionar) as usinas conforme o seu custo de operação. Como as térmicas têm custo superior às hidrelétricas, elas só seriam despachadas em momentos de crise ou falta de chuva.

É aí que reside a principal problema, disse o secretário-geral do Ministério de Minas e Energia, Maurício Tolmasquim: "Se for detectada a necessidade de térmicas é porque as hidrelétricas não terão capacidade de atender a demanda. E aí, todas as térmicas teriam de ser acionadas de forma simultânea, consumindo grande quantidade de gás".

O governo defende que as térmicas funcionem no modelo chamado de "interruptível", disse o diretor-geral do ONS, Mário Santos, em palestra no Instituto Brasileiro de Executivos Financeiros (Ibef-RJ). "Por obrigação legal, eu tenho de operar o sistema ao menor custo possível, e as usinas hidrelétricas são as mais baratas", comentou. Como os reservatórios estão cheios, é pouco provável que o ONS vá precisar das térmicas nos próximos anos. Se o contrato for interruptível, a Petrobrás não assume o compromisso de fornecer o gás, pois quer garantia para os US$ 3,9 bilhões que programou de investimentos para o setor.