Hemeroteca do
Instituto de Eletrotécnica e Energia
Nº 87261
O Globo
Data: 15/04/2005
Lula pedirá a Dilma atuação mais política
Gerson Camarotti e Cristiane Jungblut
BRASÍLIA. Irritado com relatos que recebeu durante a viagem à África, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu enquadrar a ministra de Minas e
Energia, Dilma Rousseff. Ele terá uma conversa com a ministra nos próximos dias
para saber se ela está criando dificuldades para a base governista no Congresso.
Na terça-feira, para mostrar a insatisfação de aliados com Dilma, senadores do
PMDB rejeitaram na Comissão de Infra-estrutura a indicação do engenheiro
químico José Fantine para a direção-geral da Agência Nacional do Petróleo
(ANP).
A própria ministra não esconde seu desconforto. Ontem ela se reuniu com o líder
do PT no Senado, Delcídio Amaral (MS), que antes conversou com o líder do PMDB,
senador Ney Suassuna (PB), e com o senador Alberto Silva (PMDB-PI) para tentar
contornar o impasse. Além de cargos em empresas do setor elétrico e estatais,
eles cobram outra postura da ministra no trato com parlamentares.
— Temos que ter tranqüilidade para desenvolver os trabalhos legislativos no
Congresso e resolver a situação do PMDB de forma especial — disse Delcídio.
Ministro diz que Dilma ainda está a salvo da demissão
No Palácio do Planalto há uma grande insatisfação com o fato de a ministra
achar que, por ser uma técnica, não precisa fazer política. Quarta-feira, na
reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o ministro-chefe da
Casa Civil, José Dirceu, desautorizou a posição da ministra, contrária à
construção da usina nuclear Angra 3 — uma decisão política. Segundo um
interlocutor próximo do presidente, a posição de Dilma foi interpretada como
uma provocação ao Planalto, pois pode passar a idéia de divisão no governo.
Mas Dirceu socorreu Dilma ontem ao defender a indicação de Fantine. Num recado
ao PMDB, ele disse que quem é contra Fantine na ANP deve entregar seus cargos
no governo e se mostrou confiante de que a indicação será aprovada no plenário
do Senado.
— Essa é uma indicação do presidente da República e quem afirma que esse nome
não deve ser aprovado deveria entregar o seu cargo. Mas não há nenhum problema
na base (de apoio ao governo) no Senado. É um incidente isolado e não é de
responsabilidade da ministra Dilma — disse Dirceu. — Ela não fez nada que possa
ter levado a isso (à derrota).
Só que outros ministros e o próprio Lula já receberam reclamações sobre Dilma.
Acredita-se que o presidente deixe claro que ela precisa se empenhar na
articulação política.
Por enquanto, segundo um ministro, Dilma está a salvo da demissão. Mas ela foi
alertada por integrantes do governo de que pode ser substituída, já que sua
pasta não é uma área de atuação histórica do PT, como Saúde, Educação ou
Cidades. Sem uma base parlamentar em defesa de seu ministério, o único fiador
hoje de Dilma no governo é o presidente Lula.
Depois de ser responsabilizada pela derrota do governo, Dilma decidiu fugir do
assédio da imprensa. Na quarta-feira, ela não concedeu entrevista depois da
reunião do CNPE, e ontem, no ministério, foi assinado um protocolo de intenções
entre a Eletrobrás e a coreana Kepco sem divulgação prévia. Outra hipótese, já
que a ministra não costuma fugir dos jornalistas, é que tenha recebido ordem do
Planalto de se recolher para facilitar as negociações com o PMDB.
Procurada ontem pelo GLOBO, Dilma não retornou o pedido de entrevista.
COLABOROU: Mônica Tavares